Confiança parece simples — até você perder uma. Todo mundo tem história de quebra de confiança, auto-sabotagem ou insegurança. E eu, porventura, não escapei de algumas.
Quanto mais velhos ficamos, mais entendemos o jogo e menos vontade temos de depositar confiança nos outros. Mas nos enganamos: todo dia fazemos apostas — inevitáveis — em completos desconhecidos. No motorista do Uber, na senhora da fila da padaria, em qualquer estranho com quem cruzamos.
A Metáfora da Moeda
Gosto de pensar que confiança é como uma moeda que entra em circulação no momento em que interagimos com alguém. Não é troca — é emissão. Eu te dou minhas moedas, você me dá as suas. O saldo inicial de cada lado é um voto de confiança.
Daí vêm as perguntas naturais: como ganho mais confiança? Como não perder a que tenho? A resposta incomoda: você não precisa — e nem consegue — ganhar mais. Você só mantém o que já recebeu. Nesse jogo, é fácil gastar a confiança que te deram. Recuperá-la é bem difícil.
Aqui mora a inversão mais importante: se você já tem confiança, não precisa implorar por mais. Só não a desperdice. Quem age como precisa “provar valor” o tempo todo acaba fazendo o oposto — performa, promete além da conta, erra por pressão. Gasta moedas que nem sabia que tinha.
Uma analogia maior que frisa bem é a do próprio dinheiro. Quando vamos comprar alguma coisa, não precisamos necessariamente confiar no vendedor — e nem ele em nós. Precisamos apenas de um intermediário que ambos confiamos: nesse caso, a instituição bancária. Efetuamos o pagamento e nossa fonte de confiança em comum faz o seu papel, entrega a minha moeda de troca para o vendedor e assim eu recebo meu produto, sem mais nem menos.
A confiança entre pessoas funciona da mesma forma. Concordamos firmando um contrato fictício que compartilha algo em comum em nossa relação. Se um lado para de acreditar no contrato, a confiança se perde.
A Economia das Relações
Se a confiança é a moeda, quais as regras da economia?
Existe uma base teórica para isso: a Teoria da Troca Social (Homans, 1958). Ela propõe que toda relação humana é regida por um cálculo de custo e benefício — consciente ou não. Buscamos recompensas (afeto, status, segurança) e tentamos minimizar custos (tempo, energia, risco). A relação se mantém enquanto o saldo for positivo para os dois lados.
A moeda é o meio de pagamento das trocas sociais — toda interação é uma troca. Cada interação positiva fortalece o saldo. Cada interação negativa consome moedas. Se o saldo zera, a relação quebra.
Stephen Covey chamou isso de Emotional Bank Account (Conta Bancária Emocional). Ações positivas são depósitos: cumprir promessas, ouvir de verdade, transparência. Ações negativas são saques: quebrar promessas, não escutar, omitir fatos.
A conta nunca zera de uma vez. São pequenas atitudes que tiram, pouco a pouco, as moedas do seu bolso. Quando a pessoa percebe que você não tem mais moedas, a confiança se encerrou. Recuperar é possível, mas custa depósitos consistentes e tempo — e nem sempre quem confiava está disposto a te entregar mais moedas.
Entendemos que a confiança é a moeda e as relações são trocas. O problema nunca será o valor que a moeda possui; é quando um lado acha que tem menos moedas que o outro — mesmo sem evidências —, desencadeando uma insegurança que, para quem sente, é legítima, mas na prática muitas vezes é infundada.
A Outra Face da Moeda
Um dos pontos mais falhos de nós humanos quando falamos de confiança é quando viramos inimigos de nós mesmos.
Sem aviso, começamos a ler entrelinhas, projetar conspirações, presumir não-acontecimentos, nos colocando como “inferiores” na relação. O outro lado — muitas das vezes — nem chega a perceber esses indícios, pois eles simplesmente são omitidos.
E nessa premissa é desencadeada a auto-sabotagem, onde a pessoa começa a achar que precisa provar algum valor para estar no mesmo pedestal que o outro. Promete coisas além do que consegue entregar, erra por pressão de si mesma, confirma a própria neurose, se afasta e a relação vai para o saco.
Pessoas emocionalmente inseguras sofrem demais em relações de confiança. Sem perceber, elas passam a deduzir — inconscientemente — que o outro está as traindo, fazendo com que busquem por “provas” falsas para justificar o medo. A neurose encontra evidência em qualquer coisa e se fortalece sozinha, gastando energia e tempo com um inimigo inexistente.
No fim, ela mesma destrói a relação, mas na cabeça dela, foi o outro quem traiu.
Como Fortalecer a Moeda
Percebemos o quão volátil é a moeda da confiança. É preciso aprender as precauções certas para não quebrar nem os outros nem a si mesmo.
Seja totalmente transparente com seu parceiro. Nunca esconda erros, procure assumi-los sem justificativa para estar certo — erros são erros. Não omita informações nem minta: isso é o que mais tira moedas do bolso.
Como dito anteriormente, pratique a escuta, dê atenção necessária, cumpra o que prometeu. Seu objetivo nunca será ganhar mais confiança, é apenas fortalecer o que já existe.
Caso você erre, assuma a responsabilidade da perda. Observe e aprenda com interações passadas com essa pessoa — por isso seja um bom ouvinte. Tenha um plano claro para não cometer os mesmos deslizes.