[…] estava caminhando quando eu vi uma criança sentada na beira da calçada, me parecia cabisbaixa… Meu dia já não estava tão bom, então eu acho que se eu me aproximar e conversar um pouco talvez melhoremos o nosso dia.
Enquanto eu me aproximava — tragando meu último cigarro — a criança levanta a cabeça e olha diretamente para mim, ela sabia que eu estava indo em sua direção. Eu olhei de volta e percebi, eu conhecia aquele garoto.
Antes mesmo de conseguir sentar ao seu lado, já me veio a primeira pergunta.
— Oi tio, tudo bem? — se ajeita um pouco para o lado me dando espaço para se juntar a sua companhia.
— Olá jovem, tudo bem sim. Você não vê problema que eu fique aqui do seu lado para descansar um pouco, né?
— Não tio, eu estou sozinho mesmo, então não tem problema. Mas, quem é você?
— Ah, bem… Acho que vai ser difícil você acreditar, mas eu sou você.
— Você sou eu? — dá uma risada — Tio, mas eu tô aqui, não tem como você ser eu.
— Eu sei que pode parecer estranho, mas realmente eu sou você do futuro.
— Para de mentir. — uma risada forçada, bem típico de criança — Então me diz o nome do meu melhor amigo.
— Bom, seu melhor amigo de agora é o Kel***.
— Ei! Esse é o nome dele mesmo, como você sabe disso? — pergunta bem espantado — Tá… Me diz então com quem eu moro? Quais meus outros amigos?
— Você mora com o Tio Lea***, Tia Eli*** e a Vó Cec***. Seu amigo mais próximo é o J*** que mora duas casas para baixo da casa do Vô J***.
— Não tô acreditando — rindo de nervoso — Então se você sou eu, eu posso saber de tudo do futuro? Que maneiro.
— Basicamente. Eu sei tudo sobre você, mas você não sabe nada de mim, então fique a vontade pra me perguntar o que você quiser.
— Eu tenho muitas coisas para perguntar então, fica preparado. Eu vou conseguir fazer outros amigos já que o Kel*** foi embora?
— Vai sim, mas nem tantos. Você se tornou mais fechado conforme o tempo passou, mas por algum motivo você escolheu as pessoas certas para estar com você.
— Hm… Mas isso é bom ou ruim? Quem são essas pessoas? Vai demorar muito tempo para conhecer elas?
— Calma pequeno, calma. Não consigo te responder com certeza se isso é bom ou ruim, mas quem está por perto com toda certeza vale a pena. Bom, quando você entrar no sexto ano você vai conhecer o Ra***. Ele vai te ajudar muito nesse período até o ensino médio, principalmente nos dias em que você se sentir sozinho. A família dele com toda certeza é sua, valorize o irmão de outro sangue que você vai ter. O outro é o Ale***. Esse vai demorar um pouco para aparecer, vai ser lá para o início do ensino médio. Esse é um cara que você sempre precisa manter por perto, ele é o amigo que você mais vai conversar, os poucos interesses que você possui ele terá em comum contigo. Também procure ouvi-lo, ele com toda certeza é a voz da razão.
— Que legal! Tem mais?
— Infelizmente não. Porém uma notícia boa. Assim que você conhecer o Ale*** você vai voltar a falar com o Kel*** e indiretamente, totalmente sem querer você vai juntar um grupo de amigos. Não fique triste por serem poucos, fique feliz porque eles são sua família.
— Entendi… Tá, outra pergunta. Eu vou conseguir ser veterinário?
— Olha, pra ser sincero não. Essa é só uma fase que mostra que você tem um bom coração e quer ajudar os mais indefesos, isso sempre foi lindo em você, mas seguimos por outro caminho. Antes de fato ir para a área de tecnologia, você decidiu ter uma profissão que ajuda também, mas pessoas. Você quiser ser psicólogo, mas também não seguiu por que teve medo de ingressar e não conseguir “ser alguém”.
— Tecnologia? Tipo, a gente vai jogar video-game o dia inteiro e ganhar dinheiro? Então a gente vai ser YouTuber? — comemora de felicidade.
— Não também. — abro um sorriso — para simplificar, nós que fazemos os jogos que você mencionou. Infelizmente ser YouTuber não deu certo. Você ainda tem vontade de gravar vídeos, não jogando, mas compartilhando um pouco de conhecimento, um pouco da vida. Você de um jeito ou de outro procura ajudar as pessoas. E falando em ajudar, você quer ajudar as pessoas através da educação e ensino.
— Nossa, a gente quer fazer muitas coisas pelas pessoas, mas porquê? As pessoas nem gostam de ficar muito perto de mim, não me dão atenção, porque eu vou querer fazer isso por elas?
— Que pergunta difícil… Você descobriu que nunca foi o culpado. Na verdade ninguém era o culpado. Foi difícil, muito difícil aprender isso sozinho, mas você conseguiu e percebeu que tem gente igual a você, com o mesmo pensamento, com as mesmas questões que precisam de ajuda, por isso você quer fazer tanto pelo próximo. E bem… um outro amigo te fez descobrir o seu papel nessa vida.
— Mas outras pessoas tudo bem não me dar atenção, mas por que o tio e a tia não falam comigo? Porque eles não perguntam se eu tô bem? Porque eles não ficam felizes com minhas notas da escola? Eles gostam de mim?
— Sim, eles te amam muito. — respondo com um nó na garganta — Não julgue-os. Eles nunca tiveram um filho, não sabem exatamente como é te criar como um. Eles tiveram uma criação diferente, não sabem muito bem o que fazer, sabe? Eles estão vivendo a vida pela primeira vez, assim como você. Não se preocupa com isso, eles tem muito orgulho de você e confiam muito, mas muito mesmo em você pequeno.
— Eu já fui feliz?
— Você não se sente feliz?
— Não sei dizer tio. Só quero saber.
— Sim. Você foi e é muito feliz. Muitas coisas te deixam grato, mas outras coisas não, mas faz parte da vida, nem sempre as coisas serão 100%. Agora mesmo você não está 100%, mas tenho certeza de quando você for passar as férias na casa do vô você vai ficar feliz por brincar as férias toda.
— Eu gosto da Fer*** ainda? A gente ficou junto?
— Não. — engolindo seco — Você acabou gostando de outras pessoas conforme o tempo se passou. Ela foi apenas sua primeira paixão, isso acontece com todo mundo.
— Essas outras pessoas que eu gostei, eu amei muito elas e elas me amaram muito também? Estamos namorando?
— Algumas pessoas passaram pela sua vida e foram embora, talvez porque deveriam ter ido ou pelos meus próprios erros… Te ensinaram o que é amor, companheirismo, cuidado, paciência… Seja grato futuramente por todas essas pessoas, elas fizeram quem você será no futuro. Não estamos namorando. Hoje estamos sozinhos, apenas focados nos projetos e no trabalho.
— Mas porquê?
— … Acho que tenho que cuidar um pouco de mim, garoto. Como eu te disse, nós queríamos ser o super-herói na vida de todos, mas para ser herói para os outros é necessário ser super para nós mesmos. — me recolho um pouco.
— Você tá bem, tio?
— Estou sim pequeno, estou sim.
— Olha, eu tenho que ir embora agora, mas quem sabe em outro momento a gente possa conversar de novo. Gostei muito de falar com você. — levanta e te dá um abraço.
— Obrigado pequeno, obrigado — segurando as lágrimas.
A criança levanta e sai correndo gritando:
— EU TE ACHEI O MÁXIMO, TIO!
[…]